domingo, 28 de outubro de 2007

De repente

E de repente , nos deparamos com a possibilidade do esquecimento. Percebemos como
tudo na nossa vida é frágil e fugaz. E sofremos, então, ante a certeza das perdas prováveis. Perda das palavras. Perda dos sorrisos. Perda da cumplicidade implicitamente consentida. Perda da emoção. Um pedaço de nós se vai na traição de uma memória que nem sempre sabe sentir.
E de repente nos deparamos com a necessidade urgente de criar meios de não esquecer. E guardamos fotos. E gravamos imagens e falas. E escrevemos. E nos dizemos que vamos guardar as lembranças em lugares especiais da memória, fáceis de acessar a qualquer momento.
E sabemos que tudo isso não passa de formas de enganar a verdade terrível de que tudo esta fadado ao esquecimento, porque, por mais que tenhamos as fotos, as imagens, as falas, os textos, não temos mais o sentimento, a emoção, o calor. Perdemos o que foi e nos perdemos nessa perda.
E de repente nos deparamos com a velha verdade de que é preciso emocionar e se deixar emocionar enquanto podemos sentir as emoções e dar a elas o significado que têm. É preciso se permitir sentir, mesmo que, nem sempre, entendamos exatamente a dimensão daquilo que estamos sentindo. Mesmo que nunca venhamos a entender. Mesmo que entendendo, venhamos a ter que nos perdoar.
Compreendemos, então, que o presente é preciso. De repente.

Suzana Borges da Fonseca Bins em Reflexões



Nenhum comentário: